CAFÉ ESTALINEGRADO
Tínhamos feito alto por uma noite na pequena localidade de Vlassotintzy, a meio-caminho entre Liaskovitzy e Pirote. Os alemães haviam sido repelidos apenas na antevéspera, mas já a pequena estalagem onde nos demorámos a jantar até à meia-noite se chamava Café Estalinegrado.
Este nome majestoso, pintado a vermelho sobre o vidro estilhaçado da única janela, tinha algo de ingénuo e de comovedor que fazia sorrir.
Éramos uns quinze e o dono do café colocara em fileira as três mesas de grossas tábuas que constituíam o único mobiliário do estabelecimento.
A refeição, que nos servia de almoço e jantar ao mesmo tempo, prolongou-se durante duas boas horas, pois não tínhamos comido coisa alguma desde o dia anterior.
Saciados de carne e pimentões vermelhos que, diversamente combinados, constituíam toda a ementa, deixámo-nos ficar por algum tempo à roda da lareira, aquecendo-nos e regando as goelas inflamadas pelos pimentões com grandes goladas de vinho branco ácido.
O comandante Simitch, chefe de brigada, pegou numa bilha de vinho e, com um movimento habilmente combinado, fez deslizar o vinho precisamente entre os lábios. Depois foi afastando cada vez mais o recipiente, mas o fio de líquido continuava a cair-lhe infalivelmente na boca.
Quando colocou a bilha em cima da mesa, um capitão russo, que viera à aldeia para ali instalar um aeródromo e que até então não pronunciara uma única palavra, dirigiu-se a Simitch.
– Esteve em Espanha, não há dúvida?
– Estive, sim – respondeu Simitch.
– Lá toda a gente bebe o vinho dessa maneira – concluiu o capitão. E, acendendo um cigarro, mergulhou de novo no seu mutismo.
Durante longo tempo Simitch contemplou o lume que devorava a lenha. Por fim disse-me com um ar pensativo:
– Vêem-se sempre figuras na chama da lareira. Não é verdade?
– Figuras?
– Sim, Olhamos o fogo e abandonamo-nos aos nossos pensamentos. O lume parece-se sempre a qualquer coisa. Olhe, estas brasas parecem as montanhas de Santander... E estas cavacas estalam como detonações.
A estas palavras o seu rosto, voltado para mim, tornou-se sonhador e triste.
Konstantin Simonov
(Rússia, 1915 – 1979)
Os Melhores Contos de…
(Tradução de José Maria de Almeida, Arcádia, s. d.)
[obrigado, Rui]