sábado, 27 de outubro de 2012

Sigo por aqui.

segunda-feira, 21 de maio de 2012


David Solomons

quinta-feira, 17 de maio de 2012

RUY BELO NA PRIMAVERA DA CERVEJARIA

Mas quando Maria se encaminhou para o balcão, descobriu que diante de um acampamento de canecas de cerveja havia um vulto. Não se podia ver da entrada porque estava encoberto por uma coluna de lagostas vivas dispostas numa vitrina quase até ao tecto.

Maria sentou-se ao balcão no sítio onde acabava o estendal de canecas vazias e pousou a malinha e os óculos de sol no banco ao lado. O vulto lia A Bola apoiado numa cerveja a florir de espuma. Era um indivíduo louro e encorpado, um tanto para o gordo; cabeça à meia calva, salpicada dum orvalho que era o transpirar da fresca e esfuziante bebida matinal; mãos mimosas embora sólidas, de anjo camponês (se é que há disso, anjos camponeses). Maria viria a saber que estava na presença do poeta Ruy Belo que só conhecia pelo lido

Como era de esperar, o poeta Ruy Belo ao vivo e em tal e qual não tinha nada que fizesse supor o dos versos. Bebia cavalarmente (coisa que não constava por escrito) pois já tinha com ele uns largos litros de cerveja e ainda a manhã ia no princípio. Lia A Bola com a devoção de quem lia o Plutarco, ao mesmo tempo que mastigava de maneira truculenta tremoços apanhados ao acaso e até migalhas deixadas no balcão sabe-se lá por quem.

José Cardoso Pires
(1925 – 1998)
Alexandra Alpha
(Dom Quixote, 1999)

quarta-feira, 9 de maio de 2012

CERVEJARIA RIBADOURO

De caminho pararam numa montra da Cervejaria Ribadouro que estava preenchida de alto a baixo por santolas empilhadas, um autêntico muro de carapaças peludas com olhinhos em botão e patinhas a acenar para as pessoas que passavam. Beto achou aquilo estúpido, sem interesse, mas Sophia explicava-lhe, apontando para as mandíbulas que mexiam, que eram fortíssimas, a serrilha daquelas presas não só fixava como comprimia o que pudesse agarrar; eram bichos obscenos, lá isso eram, mas ela apreciava imenso. Comidas a martelinho de pau e regadas a branco gelado, as santolas tinham montes de assunto para descobrir. Disse que uma vez, num viveiro para os lados de Cascais, ela e a Maninha despacharam para aí uns três quilos daqueles bichinhos regados a espumoso, espumoso em balde de senhoria, do mais vivo, do que mexe com a pessoa [...]

José Cardoso Pires
(1925 – 1998)
Alexandra Alpha
(Dom Quixote, 1999)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

OLIVA SPESSIOSA

Rosa de capuchina al licor de bellota y
valea de sidra;
brocheta de frutas glaseadas
com sabayón;
panchineta de almendras;
lenguas de gato con manzanas caramelizadas, salsa de
moka;
flan de frambuesas
com natillas;
bombón de chocolate
com coulis de melocotón;
biscuit glasé de café com chocolate fundido;
tarta de queso y grosellas;
nuestros sorbetes diarios de frutos tropicales;
tulipa de crocantino com
helados del día;
arroz com leche de la tía Margarita.

Praça do Oriente
os alabardeiros do rei
amargo castelo das águias
café
café solo.

João Miguel Fernandes Jorge
(n. 1943)
O barco vazio
(Presença, 1994)

terça-feira, 27 de março de 2012


Devin Yalkin

segunda-feira, 26 de março de 2012

OS SURREALISTAS DANDO ARES NA CLOSERIE DE LILAS

[...] há que recordar o escândalo promovido em Julho de 1925 na Closerie de Lilas, quando Breton, Ernst, Leiris e Soupault provocaram uma rixa e uma violenta intervenção da polícia e da multidão enfurecida ao gritarem «Viva a Alemanha, viva a China, vivam os rebeldes marroquinos, morra a França».

Fanco Fortini
(Itália, 1917 – 1997)
O Movimento Surrealista
(Tradução de António Ramos Rosa, Presença, 1980)

terça-feira, 20 de março de 2012

CERVEJARIA RIBADOURO

Isto não é uma cervejaria, é uma baía de cascas de tremoços com canecas à deriva.

José Cardoso Pires
(1925 – 1998)
Balada da Praia dos Cães
(Dom Quixote, 2007)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

PRIME BURGER RESTAURANT

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

CAFÉ DE SUBÚRBIO (24)

Ao chegar hoje à esquina das manhãs do olhar,
Vejo o café fechado,
Sem uma cruz piedosa a anunciar
Que morreu traspassado.
Renasce em snack-bar?
Em sucursal de banco? Ou em supermercado?

Onde esgotar, agora, as preguiças do dia?
Onde achar nova asa a expandir-se no voo?
Onde dar de beber à poesia
Mais decifrável do que sou?
O Álvaro de Campos certamente diria:
– Desde hoje o subúrbio mudou!

António Manuel Couto Viana
(1923 – 2010)
As escadas não têm degraus, nº4
(Cotovia, 1991)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

PROVINCIAIS, EXACTOS E BARULHENTOS

Nunca se esquecerão estes cafés ou estas pastelarias provinciais tão exactas e barulhentas nos Domingos de Fevereiro. Às vezes ainda retardam as decorações natalícias. Mas o que melhor exibem são as taças e galhardetes ganhos pelo grupo desportivo local entre as escassas garrafas das prateleiras. Uma salamandra ou uma braseira rodeiam-se de gente comunicativa das bandejas e do incansável moinho de café. O «cheirinho» no café. A humidade mostra-se nas paredes sob as desafiadoras beldades tropicais dos calendários. Cinzeiros improvisados. Uma raposa embalsamada sobre o televisor. Os empregados transtornados pela muita solicitação. Uma cerveja que se entornou. A serradura que junta cascas de tremoços e amendoins pelo chão. As cores excessivas da televisão. E o relato de futebol por fundo. E as vozes a subir de tom. E a tosse. E a criança que começa a chorar. E o cão que entra para ser escorraçado. Oh estes cafés são os foros das antigas comunidades.

Manuel Hermínio Monteiro
(1952 – 2001)
Urzes
(O Independente, 2004)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012


Martin Parr | A couple in a café (New Brighton, England, 1985)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

CEIA NO SARDI’S

Hugo Claus esteve na estreia de uma nova comédia de Chayefski. Conta que a seguir ao espectáculo foi cear ao Sardi’s onde ceiam todos os actores e a gente do teatro. Com grande ansiedade todos esperam a saída dos jornais, porque uma hora depois do fim do espectáculo, pela uma, saem o Times e o Herald já com a crítica. (Escrita na altura, não sobre os ensaios.) Chegam os jornais. Um dos actores lê a crítica no silêncio geral. Mal ouvem que o crítico disse bem do espectáculo, todos aplaudem, abraçam-se, mandam vir champagne. A peça estará em cena durante dois anos; se a crítica fosse má ao fim de poucos dias era retirada do cartaz. Aparecem logo os empresários, os agentes, os direitos do espectáculo são vendidos em todo o mundo, gente a correr para os telefones, dentro de uma hora está decidida a sorte do espectáculo durante anos, com um imprevisto número de negócios na ordem dos milhões.

Italo Calvino
(Itália, 1923 – 1985)
Um Eremita em Paris
(Tradução de José Colaço Barreiros, Teorema, 1996)

domingo, 8 de janeiro de 2012

CAFÉ DE SUBÚRBIO (23)

Dezasseis anos, talvez.
Vejo-a, no café, cada manhã,
A folhear, atenta, um compêndio de inglês,
Com um perfume a Escola e a maçã.

Não me canso de a olhar. Às vezes, olha
(Um velho!), num desvio de atenção,
E logo volta a folha,
Enquanto molha
O bolo no «galão».

Eu saio, com pesar, bebida a «bica».
Ela é a minha manhã,
Tão natural, tão clara… que ali fica.

– Que saudades da Escola! Que fome de maçã!

António Manuel Couto Viana
(1923 – 2010)
As escadas não têm degraus, nº4
(Cotovia, 1991)

sábado, 7 de janeiro de 2012

I GUERRA MUNDIAL

Mme. Verdurin, piorando das enxaquecas por já não ter croissants para molhar no seu café com leite […]

Marcel Proust
(França, 1871 – 1922)
Em Busca do Tempo Perdido, Vol VIII
(Tradução de Maria Gabriela de Bragança, Europa-América, 1986)