Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

CAFÉ DE SUBÚRBIO (24)

Ao chegar hoje à esquina das manhãs do olhar,
Vejo o café fechado,
Sem uma cruz piedosa a anunciar
Que morreu traspassado.
Renasce em snack-bar?
Em sucursal de banco? Ou em supermercado?

Onde esgotar, agora, as preguiças do dia?
Onde achar nova asa a expandir-se no voo?
Onde dar de beber à poesia
Mais decifrável do que sou?
O Álvaro de Campos certamente diria:
– Desde hoje o subúrbio mudou!

António Manuel Couto Viana
(1923 – 2010)
As escadas não têm degraus, nº4
(Cotovia, 1991)

Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

PROVINCIAIS, EXACTOS E BARULHENTOS

Nunca se esquecerão estes cafés ou estas pastelarias provinciais tão exactas e barulhentas nos Domingos de Fevereiro. Às vezes ainda retardam as decorações natalícias. Mas o que melhor exibem são as taças e galhardetes ganhos pelo grupo desportivo local entre as escassas garrafas das prateleiras. Uma salamandra ou uma braseira rodeiam-se de gente comunicativa das bandejas e do incansável moinho de café. O «cheirinho» no café. A humidade mostra-se nas paredes sob as desafiadoras beldades tropicais dos calendários. Cinzeiros improvisados. Uma raposa embalsamada sobre o televisor. Os empregados transtornados pela muita solicitação. Uma cerveja que se entornou. A serradura que junta cascas de tremoços e amendoins pelo chão. As cores excessivas da televisão. E o relato de futebol por fundo. E as vozes a subir de tom. E a tosse. E a criança que começa a chorar. E o cão que entra para ser escorraçado. Oh estes cafés são os foros das antigas comunidades.

Manuel Hermínio Monteiro
(1952 – 2001)
Urzes
(O Independente, 2004)

Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012


Martin Parr | A couple in a café (New Brighton, England, 1985)

Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

CEIA NO SARDI’S

Hugo Claus esteve na estreia de uma nova comédia de Chayefski. Conta que a seguir ao espectáculo foi cear ao Sardi’s onde ceiam todos os actores e a gente do teatro. Com grande ansiedade todos esperam a saída dos jornais, porque uma hora depois do fim do espectáculo, pela uma, saem o Times e o Herald já com a crítica. (Escrita na altura, não sobre os ensaios.) Chegam os jornais. Um dos actores lê a crítica no silêncio geral. Mal ouvem que o crítico disse bem do espectáculo, todos aplaudem, abraçam-se, mandam vir champagne. A peça estará em cena durante dois anos; se a crítica fosse má ao fim de poucos dias era retirada do cartaz. Aparecem logo os empresários, os agentes, os direitos do espectáculo são vendidos em todo o mundo, gente a correr para os telefones, dentro de uma hora está decidida a sorte do espectáculo durante anos, com um imprevisto número de negócios na ordem dos milhões.

Italo Calvino
(Itália, 1923 – 1985)
Um Eremita em Paris
(Tradução de José Colaço Barreiros, Teorema, 1996)

Domingo, 8 de Janeiro de 2012

CAFÉ DE SUBÚRBIO (23)

Dezasseis anos, talvez.
Vejo-a, no café, cada manhã,
A folhear, atenta, um compêndio de inglês,
Com um perfume a Escola e a maçã.

Não me canso de a olhar. Às vezes, olha
(Um velho!), num desvio de atenção,
E logo volta a folha,
Enquanto molha
O bolo no «galão».

Eu saio, com pesar, bebida a «bica».
Ela é a minha manhã,
Tão natural, tão clara… que ali fica.

– Que saudades da Escola! Que fome de maçã!

António Manuel Couto Viana
(1923 – 2010)
As escadas não têm degraus, nº4
(Cotovia, 1991)

Sábado, 7 de Janeiro de 2012

I GUERRA MUNDIAL

Mme. Verdurin, piorando das enxaquecas por já não ter croissants para molhar no seu café com leite […]

Marcel Proust
(França, 1871 – 1922)
Em Busca do Tempo Perdido, Vol VIII
(Tradução de Maria Gabriela de Bragança, Europa-América, 1986)

Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011

VARIEDADES

Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011


Lucien Aigner | Montparnasse Café (1930's)

Domingo, 28 de Agosto de 2011


MESA DE CAFÉ

Amigos e cerveja é a minha tarde.
A noite alinha-me os ossos.
Não fica, de tudo o que arde,
Mais do que uns tantos destroços.

Alguém pintaria a mesa:
Eu prefiro levantar-me.
A minha vida está presa
A outra espécie de charme.

Vitorino Nemésio
(1901 – 1978)
Canto de Véspera
(1966)
[obrigado, Rui]

Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011


CAFÉ CHAVE DE OURO

No dia 10 de Maio [de 1958], Humberto Delgado proferiu, numa conferência de imprensa no Café Chave de Ouro, a célebre frase segundo a qual demitiria «obviamente» Salazar, se ganhasse as eleições.

Irene Flunser Pimentel
(n. 1950)
Biografia de Um Inspector da PIDE – Fernando Gouveia e o Partido Comunista Português
(A Esfera dos Livros, 2008)

Terça-feira, 2 de Agosto de 2011


Roger Mayne | Man in a Pub (London, 1958)

Domingo, 31 de Julho de 2011


CAFÉ DE SUBÚRBIO (22)

Ela está só, em mesa separada.
Bebe água mineral.
A aliança no dedo, a dizer que é casada.
Tem, todavia, um tique de mulher fatal.

Ele está só. Solteiro? Não tem nada
No anelar esquerdo. Bebe uma «imperial».
A mesma idade, aproximada.
A mesma classe social.

Ele encara-a, descarado. Ela, indignada,
Volta-lhe a cara, num parece-mal.
Mas, quando se levanta e abandona a esplanada,
Passa por ele num passo lento e sensual.

Ele vai-lhe, de pronto, na peugada.
E uma hora depois, numa esplanada igual,
Vejo-os à mesma mesa, de mão dada,
Como um feliz casal.

António Manuel Couto Viana
(1923 – 2010)
As escadas não têm degraus, nº4
(Cotovia, 1991)

Sábado, 30 de Julho de 2011


QUEDA

Outra vez o argumento do progresso,
uma excelente demonstração de artilharia.
Os aviões desaparecem do radar, logo após
aquela linha de destroços. Estamos prestes
a aterrar, é melhor pormos o cinto.
Vai cair um café dos anos vinte.

Evocando os suspeitos do costume, há quem traga
um megafone, como quem traz uma faca
para um tiroteio: «They want to destroy this ex-libris.
If you want to help us, sign the petition

Mas isto não vai lá, sequer com a assinatura
dos turistas. O Excelsior fecha portas amanhã.

Lá dentro, sucumbindo ao estardalhaço,
uma dúzia de rapazes na casa dos sessenta
concede uma espécie de retrato post-mortem.
São os últimos dias ao serviço do império.
Feridos abandonados no campo de batalha
despedem-se do chão onde aprenderam a fumar.

Vítor Nogueira
(n. 1966)
Comércio Tradicional
(Averno, 2008)

Sexta-feira, 29 de Julho de 2011


William Christenberry | The Bar-B-Q Inn (Greensboro, Alabama, 1981)

Quinta-feira, 28 de Julho de 2011


CAFÉ ESTALINEGRADO

Tínhamos feito alto por uma noite na pequena localidade de Vlassotintzy, a meio-caminho entre Liaskovitzy e Pirote. Os alemães haviam sido repelidos apenas na antevéspera, mas já a pequena estalagem onde nos demorámos a jantar até à meia-noite se chamava Café Estalinegrado.

Este nome majestoso, pintado a vermelho sobre o vidro estilhaçado da única janela, tinha algo de ingénuo e de comovedor que fazia sorrir.

Éramos uns quinze e o dono do café colocara em fileira as três mesas de grossas tábuas que constituíam o único mobiliário do estabelecimento.

A refeição, que nos servia de almoço e jantar ao mesmo tempo, prolongou-se durante duas boas horas, pois não tínhamos comido coisa alguma desde o dia anterior.

Saciados de carne e pimentões vermelhos que, diversamente combinados, constituíam toda a ementa, deixámo-nos ficar por algum tempo à roda da lareira, aquecendo-nos e regando as goelas inflamadas pelos pimentões com grandes goladas de vinho branco ácido.

O comandante Simitch, chefe de brigada, pegou numa bilha de vinho e, com um movimento habilmente combinado, fez deslizar o vinho precisamente entre os lábios. Depois foi afastando cada vez mais o recipiente, mas o fio de líquido continuava a cair-lhe infalivelmente na boca.

Quando colocou a bilha em cima da mesa, um capitão russo, que viera à aldeia para ali instalar um aeródromo e que até então não pronunciara uma única palavra, dirigiu-se a Simitch.

– Esteve em Espanha, não há dúvida?

– Estive, sim – respondeu Simitch.

– Lá toda a gente bebe o vinho dessa maneira – concluiu o capitão. E, acendendo um cigarro, mergulhou de novo no seu mutismo.

Durante longo tempo Simitch contemplou o lume que devorava a lenha. Por fim disse-me com um ar pensativo:

– Vêem-se sempre figuras na chama da lareira. Não é verdade?

– Figuras?

– Sim, Olhamos o fogo e abandonamo-nos aos nossos pensamentos. O lume parece-se sempre a qualquer coisa. Olhe, estas brasas parecem as montanhas de Santander... E estas cavacas estalam como detonações.

A estas palavras o seu rosto, voltado para mim, tornou-se sonhador e triste.

Konstantin Simonov
(Rússia, 1915 – 1979)
Os Melhores Contos de…
(Tradução de José Maria de Almeida, Arcádia, s. d.)
[obrigado, Rui]