
Lise Sarfati |Eva-Claire #06 (Austin, Texas, 2008)
quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010
terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010
SETE CANÇÕES DE DECLÍNIO (5)
Vaga lenda facetada
A imprevisto e miragens –
Um grande livro de imagens,
Uma toalha bordada...
Um baile russo a mil cores,
Um domingo de Paris –
Cofre de Imperatriz
Roubado por malfeitores...
Antiga quinta deserta
Em que os donos faleceram –
Porta de cristal aberta
Sobre sonhos que esqueceram...
Um lago à luz do luar
Com um barquinho de corta...
Saudade que não recorda –
Bolas de ténis no ar...
Um leque que se rasgou –
Anel perdido no parque –
Lenço que acenou no embarque
De Aquela que não voltou...
Praia de banhos do sul
Com meninos a brincar
Descalços, à beira-mar,
Em tardes de céu azul...
Viagem circulatória
Num expresso de vagões-leitos –
Balão aceso – defeitos
De instalação provisória...
Palace cosmopolita
De rastaqouères e cocottes –
Audaciosos decotes
Duma francesa bonita...
Confusão de music-hall,
Aplausos e brou-u-ha –
Interminável sofá
Dum estofo profundo e mole...
Pinturas a «ripolin»,
Anúncios pelos telhados –
O barulho dos teclados
Das Linotype do «Matin»...
Manchette de sensação
Transmitida a todo o mundo –
Famoso artigo de fundo
Que acende uma revolução...
Um sobrescrito lacrado
Que transviou no correio,
E nos chega sujo – cheio
De carimbos, lado a lado...
Nobre ponte citadina
De intranquila capital –
A humidade outonal
De uma manhã de neblina...
Uma bebida gelada –
Presentes todos os dias...
Champanhe em taças esguias
Ou água ao sol entornada...
Uma gaveta secreta
Com segredos de adultérios...
Porta falsa de mistérios –
Toda uma estante repleta:
Seja enfim a minha vida
Tarada de ócios e Lua:
Vida de café e rua,
Dolorosa, suspendida –
Ah! mas de enlevo tão grande
Que outra nem sonho ou prevejo...
– A eterna mágoa dum beijo,
Essa mesma, ela me expande...
Mário de Sá-Carneiro
(1890 – 1916)
Poesias
(Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 2000)
segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
ARTE POÉTICA
“Vida de Café e rua”
dia a dia mais litúrgica
com a pompa da pobreza
e a riqueza poemária
Horas à mesa de pedra
a pensar em ti no escuro
até que surge uma estrofe
luminosa num murmúrio
..................................
..................................
..................................
..................................
Súbito, entras no Café:
não me lembro de mais nada
Conversas não sei de quê:
eu só vejo a tua boca
Já não escrevo a estrofe e troco
o murmúrio por um beijo
de mil maneiras e mordo
teu corpo todo num lábio
António Barahona
(n. 1939)
Pássaro-Lyra
(ΙΧΘΥΣ, 2001)
[Obrigado, Rui]
quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010
segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010
domingo, 31 de Janeiro de 2010
QUANDO AS LUZES COLORIDAS DESENHAM DESVAIRADOS PADRÕES
Pessoas foram assassinadas no café de Haha. Cortadas em pedacinhos. Ou então levaram algum tiro na cabeça. Há um caso que vai a tribunal para o mês que vem. Claro que essas coisas só acontecem à noite, quando as luzes coloridas desenham desvairados padrões lá dentro e cá fora, e a vitrola debita aos berros a sua música. Durante o dia, o restaurante, para além de estar deserto, tem um aspecto bastante triste e pobre.
Truman Capote
(EUA, 1924 – 1984)
Contos Completos
(Tradução de José Vieira de Lima, Sextante, 2008)
quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010
AGORA SIM
Agora sim, estava-se realmente bem: estava calor, iam beber café.
Julio Cortázar
(Argentina, 1914 – 1984)
O Jogo do Mundo (Rayuela)
(Tradução de Alberto Simões, Cavalo de Ferro, 2008)
terça-feira, 26 de Janeiro de 2010
CAFÉ DE SUBÚRBIO (6)
Vejo uma cara nova no café.
Inquieta, apressada.
Espera quem? O quê?
– Ainda não pediu nada.
Olha o relógio, com frequência,
E a porta, no Verão, escancarada.
Quem, o quê, é motivo desta urgência?
– Ainda não pediu nada.
Encontro de negócios, importante?
Empréstimo vital de dinheiro? A mesada?
Ou a compra da droga, furtiva e aviltante?
– Ainda não pediu nada.
Mas o empregado vem: – «O que deseja?»
Subitamente surge à entrada
Uma mulher que o abraça e o beija.
– Saem sem pedir nada!
António Manuel Couto Viana
(n. 1923)
As escadas não têm degraus, nº4
(Cotovia, 1991)
segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010
POEMA
Pelo salão do café, silencioso e praticamente vazio, espalhava-se a luz baça de uma manhã chuvosa de Inverno. Na mesa junto à janela, envolto em fumo, o homem fitava os transeuntes que pareciam fantasmas a sair da névoa. Quando um raio de sol atravessou a mesa, acariciando-lhe os dedos finos, Rudolph respirou em pleno e quase sorriu. Abriu o seu velho caderno de capa dura, deu uma valente baforada no cigarro e começou a rabiscar qualquer coisa que iria tomar como íntima logo a seguir' «Não vivo: revivo e prevejo./Não vejo: Revejo e persigo./Não sei se o teu beijo me castiga/quando o seu antigo aroma me visita.» Os seus olhos acabrunhavam a luz de tão tímidos: ergueu o braço e pediu um café com um falsete agudo, tossicando a seguir para sintonizar a voz masculina. Duas mulheres entraram com floreados «Bonjour, tout le monde!», lançando-lhe um sorriso: Rudolph era um homem atraente, mas a sua aura de mistério, o seu encanto de fleur du mal nascia da sua profunda impotência em conseguir ser gentil, ou sequer comunicar, com alguém que o encantasse. A sua vida amorosa tinha acontecido sempre por iniciativa alheia e só na intimidade já conquistada dos amantes manifestava ele o seu desamparo irredutível, entre perfumes e sedas brocadas. Acabava com a cabeça afundada em peitos maternais, gesto que, se começou por ser teatral, cedo se transformou na sua morna e viciosa tristeza.
Incapaz de corresponder ao sorriso das duas, intoxicado pelas impossibilidades que os seus poemas lhe revelavam, Rudolph baixou a cabeça e acariciou o seu isqueiro prateado, recomeçando a sentir a inspiração que desistir do mundo lhe provocava. Ao pegar de novo na caneta, a elegância estudada de todos os seus gestos pareceu-lhe a antevisão do seu próprio rigor mortis. «Acordo ao fim da tarde/Com a noite na garganta/A minha solidão arde/Frio cadáver de santa/ Força casta de cobarde/Canta para mim, Mundo/ Canta».
As luzes do café apagaram-se e, do outro lado da grande vitrine, o murmúrio cresceu. Eram diversas as reacções dos alunos do Liceu que tinham vindo visitar a Bio-Instalação do artista Ciber-Plástico John Mcl3, «Boulevard Vécu», ao Museu de Arte Antiga.
JP Simões
(n. 1970)
O vírus da vida
(Sextante, 2007)
[Obrigado, Rui]
quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010
O POETA RECOLHIA OS FÓSFOROS, RASGAVA O MAÇO DE CIGARROS
Quando voltava para casa, à noite, com a pasta debaixo do braço, entrava na leitaria da esquina da sua rua, no «Trindade», o seu amigo Trindade, rechonchudo e bom rapaz, que lhe vendia fiado (quando recebeu o prémio literário parte dele foi para o Trindade e quando morreu lá devia ainda seiscentos mil reis) e, nas pontas dos pés, com o seu ar cada vez mais dependurado, as calças a fugirem-lhe pelas pernas acima, pigarreando, enigmaticamente dizia:
«– 2, 8 e 6.»
O Trindade retirava-se. E daí a pouco poisava em cima do mármore do balcão uma caixa de fósforos, um maço de cigarros e um cálice de Macieira. Nesse tempo uma caixa de fósforos custava 20 centavos, um maço de cigarros 80 e um Macieira 60, ou seja 2, 8 e 6 tostões. O poeta recolhia os fósforos, rasgava o maço de cigarros e virava, de um trago, o cálice de Macieira. Depois abria a pasta, retirava dela uma garrafinha preta, e punha-a em cima do balcão. O Trindade, discretamente, pegava nela, levava-a dentro e voltava daí a pouco com ela rolhada já. Fernando Pessoa tornava a guardá-la na pasta de cabedal e, sem pagar, saía porta fora, depois de se despedir cordialmente do amigo Trindade.
João Gaspar Simões
(1903 – 1987)
Vida e Obra de Fernando Pessoa
(Bertrand, 1980)
quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010
UMA PEQUENA PÁTRIA
Não achas que a esplanada é uma pequena pátria
a que somos fieis? Sentamo-nos aqui como quem nasce
Ruy Belo
(1933 – 1978)
Obra Poética de Ruy Belo, Vol I
(Editorial Presença, 1981)
terça-feira, 19 de Janeiro de 2010
PIRES, ANTUNES, SEMEDO E MACHADO
E há os bares, os cabisbaixos bares tristes de Lisboa, tumulares e desesperados, que o gás ilumina de pavios de azeite amarelo com duas pedras de gelo, debaixo da ponta acesa do cigarro americano, em homenagem a Hemingway e a Fitzgerald. E os restantes flibusteiros connosco. Artur Semedo, a servir atrás do bigode fino a sua ironia de Capitão Blood benfiquista; Dinis Machado, sempre a apear-se de um comboio de inocência perpétua, de sapatinho elegante e sobretudo à George Raft; e eu, o último e mais espantado da troupe, calado, de queixo numa água das pedras vazia.
Quando anoitece, José Cardoso Pires começa a ganhar consistência no interior da roupa, íntimo de barmen e do labirinto estranho em que Lisboa se transforma, balizada de chafarizes e polícias que perderam, desde há séculos, o costume de sorrir. As árvores pingam trevas em cima de nós, os prédios aproximam-se, como as ovelhas, para adormecerem, encostando umas às outras os quadris das varandas. George Raft abotoa melhor o sobretudo. O Capitão Blood, de olho aceso para recordações distantes, ajusta-se na luva preta e no emblema do Colégio Militar onde moeu os miolos dos tenentes e fez coçar de aflição os sovacos dos majores. E eu alinho um segundo gargalo de água das pedras à ilharga do primeiro, enquanto José Cardoso Pires levanta as duas mãos para se lançar no espaço rarefeito de fumo a explicar Jack Nicholson.
Às duas da manhã, quando as rugas, piedosamente apagadas pela ausência de sol, fazem de nós um grupo de adolescentes à espera da primeira comunhão e de uma nova garrafa, e os empregados dos bares circulam entre as mesas com a diligência das senhoras que procedem à recolha das esmolas no ofertório das missas, movidos pelo afã cristão da cirrose, saímos para o ressonar a estores soltos dos bairros de Lisboa, o Dinis ocultando o revólver no sobretudo impressionante, o Artur, corsário do celulóide, a ferver de ideias de tal forma que o bigode lhe borbulha, eu a arrotar a água das pedras nas esquinas, que é a minha forma canina de erguer a perna e urinar, e o Zé, granito sem peso, à procura do Dupont nos bolsos para nos converter melhor a um golo do Nené.
António Lobo Antunes
(n. 1942)
Cardoso Pires por Cardoso Pires
(Dom Quixote, 1991)
segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010
domingo, 17 de Janeiro de 2010
CAFÉ DE SUBÚRBIO (5)
O café, ao fundo tem bilhares.
Iniciam-se ali, fechada a Escola,
Os moços escolares
Na ciência subtil da carambola.
Lembram a Ala enamorada de guerreiros,
De lanças firmes na mão.
E o verde varonil dos tabuleiros
Aumenta a sugestão.
Lutam por suas damas? Lá estão elas
Empoleiradas, a fumar (um fumo proibido?),
Se fulgor de damascos ou doirado de telas:
Apenas uns tee-shirts e uns jeans por vestido.
Não gostam do ambiente. Era maior desejo
A intimidade sensual da discoteca,
Mais ousado o enlace, mais demorado o beijo...
Aquela sala é toda masculina e secreta.
Eu levanto-me e vou espreitar a partida.
Irão admitir-me, como rei tutelar?
Um conhece-me. E logo me acolhe, revestida
De gonfalões de glória, a sala de bilhar!
António Manuel Couto Viana
(n. 1923)
As escadas não têm degraus, nº4
(Cotovia, 1991)


