PRAÇA DA ALEGRIA
Cheira bem: a café fresco, ou antes, a café misturado com o cheiro das violetas que o pequeno vendedor puseram em cima da minha mesa, insistindo para que lhe comprasse um ramo. A quem o daria? Disse-lhe isso mesmo, que vivia no Porto como quem vive na ilha do Corvo, não tinha ninguém a quem dar uma flor. O rapazito, com olhos escuros de potro manso, percebendo que a minha recusa era débil, não arredava pé. Acabei por comprar-lhe as violetas e oferecê-las à lua, acabada de surgir no canto da praça, branca, redonda, carnuda, que, ao aceitá-las, apesar de puta velha, se pôs da cor das cerejas.
Eugénio de Andrade
(1923 – 2005)
Colóquio | Letras nº91
(Fundação Calouste Gulbenkian, 1986)
domingo, 22 de Novembro de 2009
sábado, 21 de Novembro de 2009
sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
AMÁLIA
Lavava pratos, à noite, num pequeno restaurante de Alfama, num pátio ao fundo de uma estreita passagem que dava para a Rua de São Pedro, seis mesas debaixo de uma grande árvore, teatrais cortinas de roupa a secar às janelas e os olhares obstinados, impávidos, dos inquilinos dos andares que, imóveis ao lado da sua gaiola de pássaros, pareciam fazer um esforço para aspirarem com os olhos os pratos de bacalhau e de polvo.
Olivier Rolin
(França, 1947)
O Bar da Ressaca
(Tradução de Tereza Coelho, Dom Quixote, 1989)
quinta-feira, 19 de Novembro de 2009
A PREPARAÇÃO DA MORTE NA ESPLANADA D'A BRASILEIRA
Sentei-me a uma mesa, junto à estátua de Fernando Pessoa, na esplanada d'A Brasileira. Pedi um café, um pastel de nata, e comecei a preparar a minha morte.
José Eduardo Agualusa
(Angola, 1960)
Barroco Tropical
(Dom Quixote, 2009)
quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
CAFÉ DE SACO
Cafés abertos durante toda a noite. Ficas de pé, quase imóvel, com um cotovelo pousado no balcão de vidro, espessa placa translúcida pregada com cavilhas de bronze ao betume do soco, meio voltado para um flipper a que se agarram teimosamente três marinheiros. Bebes vinho tinto ou café de saco.
Georges Perec
(França, 1936 – 1982)
Um Homem que Dorme
(Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Presença, 1991)
terça-feira, 17 de Novembro de 2009
segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
REIS MAGOS
Uma mesa de plástico, branca
junto da tarde que morre
e renasce por pequenas paixões
de repente estávamos sozinhos
as ilhas muito inacessíveis
agora que escureceu
o menor desejo teria um sentido delicado
os olhos velozes de um gato
viam coisas belas
lado a lado com os homens
pareciam quase não ter sofrido
a mesa estava encostada às janelas do café
e nós de forma desolada
ignorados, aturdidos, de passagem
não muito mais
procuro desse facto uma versão
que não me conduza à inconfidência
era uma mesa lisa, branca
uma razão soletrava ao acaso
a medida soberana do incerto
olhos velozes de um gato os teus
olhos
José Tolentino Mendonça
(n. 1966)
Baldios
(Assírio & Alvim, 1999)
domingo, 15 de Novembro de 2009
MURMÚRIOS DO MAR
«Paga-me um café e conto-te
a minha vida»
o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro
outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu nunca choraste
por amores que se perdem
os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
e temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois
«Pago-te um café se me contares
o teu amor»
José Tolentino Mendonça
(n. 1966)
Baldios
(Assírio & Alvim, 1999)
sábado, 14 de Novembro de 2009
sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
À PASSAGEM DE ZILDA
Cem metros adiante, numa tasquinha em paliçada destinada a banhistas beberrões (lia-se a giz na testeira de uma velha ardósia de escola: Crangueijo e Chorissos), abancavam rapazolas de camisas arregaçadas e pull-overs azuis e cor de vinho. Pareciam caixeiros em week-end. Atiravam para longe gargalhadas sonoras e cascas de lagostim. Um reparou em Zilda, cochichou, e, depois de um momento de perplexidade colectiva, as cervejas suspensas, desfecharam numa risota alvar e entrecortada de shius.
Vitorino Nemésio
(1901 – 1978)
A Casa Fechada – Obras completas, Vol. VI
(INCM, 1996)
quinta-feira, 12 de Novembro de 2009
quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
A RAPARIGA DO CAFÉ ROYAL
A rapariga do Café Royal
onde na minha juventude desfocada
bebia bagaços pela boca dos amigos
veio hoje dormir a minha casa
conciliadora
carregada de adjectivos escorreitos
tão ao gosto da poética-atelier
beijá-la nos olhos era fácil
Papisa
as suas mãos contra luz
lembrava oiro aquecido
e rebrilhava intensa
zincogravura
na cidade de Lisboa morta
António Barahona da Fonseca
(n. 1939)
Poesia 71
(Org. de Fiama Hasse Pais Brandão e Egito Gonçalves, Inova Ilimitada, 1972)
terça-feira, 10 de Novembro de 2009
NUMA BEIRA DE ESTRADA
bar que bar uma espelunca bagaço de pernas balcão nojento braços bambos saiotes desajustados rodando exalação de cachaça exalação de mijo exalação de suores cores desbotadas tremendo mancos em quantidade tamancos caixotes engradados tampinhas vômito porcarias no chão cachorro magro sarnento bando matilha em condições semelhantes agarrando um torresmo e um pouco além um gato entre garrafas azuis e lá no canto atrás da mesa de totó lambuzada de meleca e doce de leite uma beleza de mulher decotada com o cabelo preto caindo (ao lado de uma velha enrugada) no seu busto posto com dignidade e estoicismo no meio da sordidez e mixórdia dos farrapos humanos como folhas secas sopradas para dentro e para fora do antro: temporada no inferno.
Leonardo Fróes
(Brasil, 1941)
Inimigo Rumor nº14
(Cotovia, 2003)
segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
domingo, 8 de Novembro de 2009
HANÓI
Subitamente
a náusea que nasce ao fundo da carne
escancara as portas do café
e corpos milhares de corpos
irrompem
em fileiras cerradas
cadencialmente
ritmicamente
longos canais abertos
nas paredes de sangue
geometria acesa
na manhã de cadáveres brancos
e na cítara
na cítara da minha impotência
desliza e coagula
o sangue
e na cítara
na cítara no meu narcisismo
clamam
rostos sem olhos
clamam digo bem
– fazem vibrar a cítara?
não foi isso que eu disse
digo
que a cítara da bela adormecida
jaz desfeita
as rosas carbonizadas
os cisnes despedaçados
os lagos azuis são pântanos
clamam
esmagam o silêncio da Arte
pulverizam a torre de marfim
onde vivemos
é isso
não há saraus nem banquetes
não há cafés nem banquetes
não há a nona nem mozart
ao luar da neia-noite
em belos jardins fechados
dezoito e quinze não há
batalha sessão clássica
e a angústia metafísica
de ingmar e lelouch
não há sade nem genet
amada sexo desejo
loucura sonho cantatas
holderlin e o seu vinho
que canta comove chora
e faz morrer os poetas
à la recherche du temps perdu?
solidão? passado? infância?
a noite? o whisky? a chuva
que cai na bruma
e me molha o coração?
Máximo Lisboa
(n. 1935)
800 Anos de Poesia Portuguesa
(Org. de Orlando Neves e Serafim Ferreira, Circulo de Leitores, 1973)




